[ DA FEITURA DA IMAGEM COMO PRÁTICA COLETIVIZADORA]

 

 

 

Um múltiplo de rastros. Um múltiplo construído pela diferença. Um múltiplo pela coletivização do uso do espaço. Um múltiplo de construção e dissolução da presença. Um múltiplo de fragmentação. Um, múltiplo.

 

 

I

 

O rastro poderia ter vários nomes. Registro é o nome da apreensão do rastro. Registrar é amarrar o rastro, a tentativa de fixar o que se perde, para poder se retornar, de algum modo, sempre. Todo registro extrai para si a especificidade de um tempo e de um espaço que não mais são, pois constituem unidades indivisíveis. Um espaço é, a cada novo tempo, um novo lugar. O tempo é percebido pelas brevíssimas mudanças de/no espaço. O registro emoldura o mundo, fragmenta-o para que possamos dele nos apropriar. Esse apropriar-se é um tornar próprio, tomar a coisa para si no ato de sua desaparição. 

 

Um outro nome para o rastro poderia ser memória, um tipo de registro que dilui uma especificidade do tempo e do espaço, pois que é uma tarefa da mente, e a mente não é tão exata quanto se desejaria. A memória é um embaçamento, a opacidade de um registro que não se toca diretamente. A memória é a faculdade de rastrear, de tomar o que sobra como modo de se voltar ao que (se) foi. De fato, a memória nada mais é do que a imagem que sobra da imagem. Quando nos deparamos com fenômenos, objetos, pessoas, lugares, enfim, com tudo que nos rodeia e se torna experiência nós extraímos daí imagens, não tão somente visuais, mas olfativas, sonoras. A memória é um afeto que se descola da experiência com as coisas para figurar em nós. Enfim, a definição de imagem não é a imagem de uma definição, no sentido de que não se consegue amarrar completamente o que ela seria, assim como seu funcionamento.  Apenas sabemos que o que a imagem é pelo seu registro e rastro, pois ao mesmo tempo que apreende algo, que nos indica a presença de um ausente, ela está sempre no risco de extinguir-se. A imagem é sobra de uma outra imagem anterior, cambiante, em trânsito, sempre a procura de um novo corpo ou de uma nova forma de nos habitar.

 

 

II

 

Samantha Canovas se lança na tarefa de capturar lugares, de registrá-los. Todavia a especificidade dos lugares é justamente o seu caráter transicional. São espaços que não chamam comumente a percepção, ao repouso, mas ao movimento, ao trânsito. São lugares entre, ou ainda, não-lugares, pois que, a despeito de qualquer relação afetiva que possamos criar com eles, sua funcionalidade é a da circulação. A saída do metro, a universidade, e até mesmo a calçada de sua casa, que aponta justamente para o limiar entre a intimidade da residência e as múltiplas possibilidades do fora, são alguns dos espaço escolhidos. Samantha dispõe a tela no chão desses lugares, afirmando novamente o gesto modernista de destruição da pintura de cavalete. Com esse gesto, a artista muda a leitura desse espaço, reconvocando o olhar de quem passa. Quando nos deparamos com a tela no chão, a subtração do espaço público pelo seu encobrimento, nesse momento o percurso, a paisagem, cotidiana deixa de ser mecânico, desimportante. Redescobrimos esse espaço. Somos então convocados a escolha, a decidir se pisamos na tela ou se a contornamos, se continuamos o caminho ou realizamos um pequeno desvio.

 

A lona estirada no chão é um convite a participação, a imprimir-se, pois é a justaposição das pisadas dos pedestres que estampa pouco a pouco o padrão do chão em sua superfície. Samantha, entende que a pintura é a sobreposição de gestos sobre um suporte a fim de criar uma imagem. Afinal, a artista já vinha pesquisado questões relativas a pintura. Sua relação com esse meio está focado principalmente em sua materialidade, nos materiais que a estruturam, valendo-se da radicalidade econômica, da utilização do tecido e do chassi e da recusa da pigmento, elaborando imagens que não visam representar algo, mas construir e reformular um espaço. Todavia, nessa série ela faz algo completamente diverso. Da construção do espaço ela parte para seu registro, do tridimensional ela retorna ao bidimensional, e acima de tudo, ela reintroduz o pigmento. Esse, por sua vez, é a sujeira que os transeuntes trazem consigo. Samantha pinta sem tocar na tela. Seu único gesto é a de seleção de um espaço e posicionamento da lona. A feitura da obra é coletiva. O espaço íntimo de feitura da obra, antes dado no ateliê é substituído pelo espaço urbano, pelos lugares de passagem. A subjetividade do artista dá lugar a sobreposição de gestos de diversos indivíduos.

 

A dimensão coletiva é essencial na feitura dessa obra. Os múltiplos passantes imprimem um espaço comum. O espaço só se torna imagem na tela justamente pela sucessão de pessoas que por ele passam. Sua aparição se estrutura justamente por ser compartilhável. Poderíamos muito bem nos dar o trabalho de tentar diferenciar as pegadas, os tipos e configurações de sapato, buscando compreender a pressão da pisada de cada um, afinal esses são dados que buscam retraçar uma individualidade, de modo a afirmar a diferença do gesto de cada sujeito na construção final. Todavia, o que importa é justamente esse resultado coletivo, essa imagem textura, em que não há figura e fundo, em que uma pisada não se destaca de outra, mas todas juntas formam algo. Não há sentido em tentar retraçar a dimensão subjetiva, mas entender a obra enquanto construção coletiva, assim como o próprio espaço da cidade, que se dá pela forma como o habitamos, nos relacionamos com ele.

 

Por outro lado, a especificidade do espaço físico e justamente a sua diluição. O que temos como imagem é justamente o que se vê desprivilegiado na paisagem: o chão. Aquilo que denota o caminho, que indica a viagem, que retraça a errância nos levando a ver outros lugares, aqui se torna assunto. A imagem formada é um índice cujo referente é impreciso. Podemos reconhecer padrões típicos do chão, ou pisadas, entendendo a feitura da obra, mas não podemos indicar com precisão o lugar aonde a obra foi feita. O que interessa nessa obra é justamente o tipo de ação que a configura para além da imagem final.

 

 

III

 

Samantha retira esse fragmento do espaço urbano e o fragmenta ainda uma vez mais. Cada tela é cortada em partes de igual tamanho. No entanto, essa padronização não garante o mesmo efeito. A totalidade da imagem é desfeita. O espaço criado a partir da soma de gestos é desagregado em diversos pequenos espaços. A artista compartilha novamente o que primeiro foi compartilhado com ela, mas transformando-o. Samantha volta a fragmentar o que já era um fragmento. É outra redução do espaço original. É a tentativa de se chegar a menor parte possível de um índice, até o momento em que ele deixa de ter qualquer referência a um lugar, e ele passa a somente se ser.

 

 

O entendimento de múltiplo para a artista não é o da semelhança, mas o da diferença em uma situação comum. Cada parte possui sua particularidade, ao mesmo tempo em que é capaz de indicar seu pertencimento a um grupo maior.

 

 

Temos sempre o resto, o rastro do rastro das coisas se diluindo cada vez mais, passando de imagem a imagem, tendo como morada indissolúvel o nossos próprio corpo, até o momento em que também nos tornemos restos.

 

 

 

 

Texto produzido como parte da publicação do objeto múltiplo “registros temporais em espaços específicos”, lançado durante a exposição “Lembrar que a água circula por debaixo das ondas”, 2016